domingo, 27 de junho de 2010

_afasia inspirada

altar de pedra onde termina o todo
palco dos vermes e de sua fome sem fim
lago de rostos, espelho de sombras e lodo
chama que oscila das velas erguidas a mim.
fechar os olhos aqui é abri-los lá,
cessar o sopro de um lado do véu,
é o mesmo que adiar o que é 'já'
enquanto caminha-se e o olhar é para o céu.

se é inevitável vestir-se co'a madeira
e se o véu sobre a cabeça encanecerá,
que venha a campa, pesada e verdadeira,
abraço do fim, beijo que a terra dará.
e quando tudo que sou for o que fui
aí então há de sobrar podre memória;
no lamento louco de línguas em 'ai' e 'ui'
a inspiração de uma obra por nome A Glória.

terça-feira, 22 de junho de 2010

_sou eu quem

Um lampejo de lembrança
parte do que foi e não mais é.
Sou eu, e ser é a herança
dos que se dizem sãos, até...

Sou poeta, bêbado e palhaço,
pense em mim como os muitos qu' eu sou,
como os muitos encerrados no abraço
deste qu'escreve, que bebe, que dá seu show!
Equilibrado então e em meu passeio
dou piruetas na corda que se não vê;
fujo de amores em meu infindo receio
pois o palhaço, também amante, não pode ser.

sábado, 12 de junho de 2010

_paráfrase fraterna

É orgulho o que experimento toda vez em que vejo poetas de almas ancestrais nos tempos de agora. A despeito do caos que tudo isto virou, estas almas ainda amam como há milênios se amou, ainda idealizam como idealizaram de Azevedo, Alphonsus e Machado. Dado a este fato, apresento o poema de um poeta travestido de amigo.


"Vi eu a musa de meus devaneios.
Quis me esconder, disfarçar, e apaixonei-me. Ah
vil sina! Suceder o que não se imagina, até perder
(mesmo o que não se chegou a ter).

Esses beijos fortuitos que não eram meus,
este seu calor de mulher-menina que me furta os sentidos!
Qual poeta medieval que anseia por sua senhora
assim eu ainda devoto-lhe meu desejo
puro, casto.

Por mais que pesar haja em não ter-lha
no afago de meus braços.

És quem não cesso de querer..."

André, o Marques