sexta-feira, 28 de maio de 2010

_agora

Quero ser eu, mas como!?
Se nenhum dos que vejo são ‘eus’
Capazes de ser aquele a quem somo
Quando me riem, ou choram, ou me dizem adeus.

Quero o choro convertido em riso
Ser amado sendo exatamente quem
Eu sou quando quero e preciso
De mais goles de meu eu e meu ninguém.

Não me querem como sou ou não
Aceitam o pobre que posso ser;
Mas se eu fosse o tolo rico em paixão
Talvez em máscaras eu pudesse me ver.

Queria vê-los como eu, em épocas de antes
Saber seus atos que hoje, por igual, censuram
No prisma em que vivo, e ver seus semblantes
Em males antigos, que hoje pensam que curam.

Mas os mesmos males meus são marcos
De mentiras medindo a mente que mora em mim;
Monstros e medo, mistérios que miram arcos,
Metros e milhas, moinhos mortos no fim.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

_proesia em P menor

passageiro e pouco perene, eis a proesia


Por mais que eu possa, não piso na poça, passo o poço e não peço perdão. Pego na pira e no ponto de fogo, ponto de fuga que aponta pro chão. Passo rasteiro pedindo passagem, pegando em viagem o prêmio nas mãos; parto em partos as partes de mim, peço aos que podem não pensem assim. Pesco em potes porções de mim, perdendo as posses no passeio sem fim.

terça-feira, 4 de maio de 2010

_domingo em soneto



Eu amo o amor que é velado
Adoro o riso bobo que ele traz,
As palavras inocentes do namorado
E os suspiros da menina qu'ama o rapaz.

Eu rio de tudo quando apaixonado
O mundo é outro, parece, visto assim,
Como prisma, caleidoscópio virado
Mas sou tolo, por pensar que não terá fim.
Meu fim chega, nunca sozinho, porém
Vem com o riso de outra e, sendo em mim
Vejo sempre mais um barco ir além...

...o mesmo barco sou eu e sou, enfim
O horizonte que se arrasta, fugindo e vem
Traz consigo o rastro que sigo, sou eu e meu sim.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

_comigo

Não, não sou um sujeito amável
sou aquele que ignora os pedintes
passo à rua com olhar bem detestável,
a indiferença é o maior dos meus requintes.

Se me dirigem a palavra, quando ouço
assumo ar de quem finge não entender;
olhar no chão, mãos metidas no bolso:
'é comigo?' - penso – 'vai saber...'.
E assim corro de largo em pleno passo
em minha estima eu percebo não haver
motivo claro p'ra em mim haver espaço
para sorrisos, bons humor ou parecer.

A questão é que quando estou sozinho
e começo a conversar comigo apenas
sou muito mais feliz e, com carinho
reconheço ser o melhor dentre centenas.
Faça o favor de não tentar me provar
qu'é melhor ou necessário ter alguém
minha paisagem é bem melhor de se estar
quando os amigos e companheiros são ninguém.

Até porque, prefiro em muito o abraço
que me envolva no orgulho dum conselho
é mais bem vindo o contato que eu traço
é mais bem quisto o abraço do espelho.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

_o anjo em preto e branco

Agora quero falar de meu anjo
Darei voz ao coração e serei franco
Descreverei em detalhes o lindo arranjo:
O anjo que amei em preto e branco.

Eu me lembro de quando ela surgiu:
Era o mundo triste e eu poeta manco.
Mas o medo se foi quando ela sorriu;
O anjo que amei em preto e branco.
E pelo anjo, que vi e deixei ir
Há, ainda, certo amor que banco;
Anjo-mulher, que não quero ver sumir.
O anjo que amei em preto e branco.

E neste anjo eu encontrei o meu conforto,
Pois o amor de antes, obsoleto,
Preenche o coração outrora morto,
Culpa do anjo que amei em branco e preto.

Quero voltar ao dia de sua aparição,
Quando eu sorri, agradecido, ao céu.
Vi-a linda, como sempre, e sua canção
Eram os passos que ela ofertava ao léu.
E eu julgava que era um anjo que eu via,
Quando em verdade minha admiração demasiada
Era da mulher, menina dos olhos da poesia
Mulher, menina, anjo confundido em fada.

E quando olhei, de verdade, entendi
Que o sorriso era mesmo encantador!
E o que falar do cabelo, véu que vi?!
É sim um anjo que curou toda a minha dor.

Só posso então, agradecido e enamorado,
Ofertar minha admiração e dependência,
Por aquela que encontrei quando, encantado,
achei eu, nova vida em minha carência.

terça-feira, 20 de abril de 2010

_nubente



Olhos que se fecham retratam, raros.
A saudade aparente de um coração;
Que viveu à sombra de esquecidos
disparos
E, saudoso, chama o nome de sua paixão.

Tiraram-na dele, e ele dela…
Foram embora com seu sopro de vida.
Entornaram água em sua aquarela
E apagaram a quimera nela contida.

E ele não soube o amor
Que ela, em si mesma, sentia.
Pois em toda tristeza e terror
Era por ele que a alma dela ardia.

Mas a levaram, como dito;
E ambos não sorveram romance.
Pois naquele dia maldito,
O amor dos dois teve sequer uma chance.
Hoje, a urgência mostra-se poeta,
Pois fará encontrar ele, com sua menina.
A morte espreita e é vista – secreta.
Pois seu amor foi condenado à guilhotina.

Uma única lágrima implorou
Para o rosto do carrasco pelo amante;
Mas o algoz cruelmente ignorou,
Soltou a lâmina e o homem viu-se errante.

Ela chorou, a morte rápida aconteceu,
E o azul do céu testemunhou a dor…
Mas ela também sorriu quando do cálice sorveu:
o veneno a levaria a seu amor.

Nunca mais separariam o casal;
pois na colina negra se encontraram.
Caminhavam, amantes, à catedral;
num enlace final, os eternos se abraçaram.

sábado, 17 de abril de 2010

_palhaça


Palhaça, senhora de meu sorriso
Traz-me o conto e’ alegria sem o véu.
Traz-me toda a comédia de que preciso,
Mas traga também, o teu beijo, puro de céu.

Vem comigo e conduza-me, palhaça
À plenitude dum amor que não sonhei;
Minhas lembranças são tuas e o qu’eu faça
Não serve mais, pois a teu riso me acostumei..

Cada momento, por mais vão que pareceu
É rara jóia que guardo como as contas
Da pulseira que pelo acaso pereceu

A soma das notas que sopramos se perdeu
Na harmonia mais perfeita que a das ondas,
No Dia do Senhor a conheci [e na estranha ilha anoiteceu].